Setenta e duas horas et voilà

12-03-2025

As coisas acontecem muito rápido. Ainda não acabámos de digerir um escândalo e somos logo confrontados com outro. O problema deste frenesim? Há coisas que se perdem pelo caminho. O caso de Luís Montenegro, que explodiu sobretudo entre os dias 5 e 8 de março de 2025, é o exemplo perfeito: do "efeito bomba" à normalização completa, não passaram mais de 72 horas. E metade dos detalhes já foram à vida.

Façamos uma viagem pelo tempo. No dia 5 de março, a manchete dos vários jornais era explosiva. Luís Montenegro e a sua empresa - que mais é um insulto às verdadeiras empresas do que uma empresa em si - apareciam no centro de um escândalo político. O espetáculo mediático foi imediato: comentadores ao rubro, artigos de opinião que disparavam sem cessar, primeiras páginas carregadinhas de indignação. Gente para todos os gostos: os que garantiam que não se sabia ainda de metade da tramóia, os que a tratavam como uma mera perseguição política, os que não queriam saber disto para nada. O que dizer das redes sociais? De advogados do diabo, a semeadores da paz e a gestores de silêncios, também não faltava ninguém.

Mas eis que chega o dia 6 e algo começa a mudar. O objeto de discussão deixou de ser o Primeiro Ministro que completava o salário com umas avenças. Passou a falar-se de eleições e do que havia ou não de ser feito para as evitar. Cada notícia sobre o escândalo vinha acompanhada do comum "é só mais uma entre tantas outras". A agenda transformou-se: do escândalo para "desenvolvimentos políticos" e eventual ida às urnas.

Foi entre os dias 7 e 8 que se consagrou a volta de 360º: as manchetes tornaram-se serenas, quase resignadas e desinteressadas com o caso Montenegro. O grande público, exceção feita a meia dúzia de comentadores e de políticos, foi atrás. O Primeiro Ministro deixou de estar em risco e não encontra hoje qualquer incompatibilidade alguma com a recandidatura. E agora fala-se de campanhas, de armas de arremesso político, de taticismo.

Aquilo que antigamente se arrastava por meses, não chegou desta vez a meia semana de vida. A rapidez da informação reduz a longevidade das coisas e o Mundo parece perder piada se, dia após dia, não houver um acontecimento que atropele o da manchete anterior. Repito: este triste acontecimento é a melhor das ilustrações. Sem que ninguém se apercebesse, passámos de "escândalo" para "assunto encerrado" e, depois, para "eleições". Pelo caminho, tchau grandes reflexões e tchau consequências.

Convido-vos a mais um parágrafo, antes de me ir embora. Algures em A Paixão do Jovem Werther, Goethe retrata os adultos como crianças cambaleantes por esse mundo fora, não sabendo, tal como elas, de onde vêm e para onde vão. Acrescenta que nem tão pouco agem segundo objetivos verdadeiros, e que até se deixam governar com biscoitos, bolos e vergastadas. Caro leitor: onde se lê "adultos", peço que leia "responsáveis pela situação em que nos encontramos"; ao invés de "biscoitos, bolos e vergastadas", antes seja "subsídios, pagamentos e avenças". Creio que me percebe.

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