Bianca, não conseguimos perceber

14-02-2025

Ano após ano, querendo ou não, utilizadores de redes sociais acabam por dar de caras com os Grammys - o tsunami de publicações não nos deixa escapatória. Muitos até as procuram, não se tratasse do acontecimento que melhor celebra o prestígio da música e da cultura pop. Mas a história que vos trago não é sobre música. É sobre duas pessoas e roupa - ou a ausência dela.

Entre os vários focos de atração dos Grammys está a forma como as celebridades se vestem para o evento - um momento apreciado, querido pelo grande público e extremamente mediático. É por isso que, na ressaca desta grande noite, para lá de um vasto conjunto de nomeações e de memórias, somos inevitavelmente bombardeados com fotografias de outfits, outfits e mais outfits. Outfits a dar com pau.

Um deles chamou a atenção de todos: Bianca Censori, arquiteta e atual companheira do rapper e produtor Kanye West, surgiu nos Grammys deste ano vestida de nada - sim, leu bem. Em abono da verdade, até trouxe algo vestido. Uma coisa estranha que se supõe que fosse a sua indumentária: transparente e colada ao corpo, algo mais próximo de uma concessão simbólica do que da ideia de roupa. As perguntas que ficam: porquê? Qual foi o objetivo? Mostrar o poder da mulher? Kanye exibir um troféu? As duas juntas? Foi apenas uma encenação sem um propósito claro? Nada disto?

A obsessão de Kanye West pelo espetáculo não é novidade. Nem a sua necessidade de estar sempre um passo à frente: na música, na moda, no puro e simples choque. Mas Bianca, de alguma forma, elevou esse jogo a um patamar onde a fronteira entre a provocação e a submissão se esbate de forma inquietante. Ajude-me, caro leitor. Às tantas, já nem sei se vestir-se (ou não se vestir) daquela forma é um ato de afirmação ou de anulação.

Se quisermos acreditar na primeira hipótese, Censori aparece como uma mulher livre, empoderada, dona do seu corpo e sem medo de desafiar normas. O problema é que essa narrativa perde convicção quando se olha para o histórico das suas aparições públicas ao lado de Kanye: a repetição de uma mesma fórmula que combina trajes mínimos, poses programadas e uma expressão entre o enigmático e o ausente. E o que mais este raciocínio sugere é uma performance meticulosamente controlada - muito longe de uma manifestação espontânea de liberdade.

Excluída a hipótese da libertação feminina, perguntamo-nos sobre se não será apenas sobre Kanye e se tudo isto não passa de puro egocentrismo. Vejamos a ambiguidade da coisa: um homem que nunca aceitou partilhar o centro das atenções, parece agora usar a companheira como acessório vivo, qual materialização da sua visão estética e do seu desejo de controlo. Neste caso, onde fica Bianca? Talvez assente que nem uma luva no papel de nova musa do génio provocador. Se preferirmos, no de manequim que desfila segundo a vontade do mestre.

Pode ser tão somente uma forma de nos manter a falar deles. Mas pode também ser um retrato daquilo a que a cultura do espetáculo chegou: uma corrida sem freios para ver quem choca mais, sem que ninguém pare para perguntar se há algo substancial por trás da polémica. E esse desafio de chocar, para onde será que nos conduz? Ou já terá conduzido? Até que ponto a necessidade de ultrapassar limites para manter relevância nos condena a uma espiral vazia, onde a substância se perde e apenas o impacto importa?

No meio de tanta pele exposta, creio que a maior nudez seja a da ideia por trás disto tudo.

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