És os teus números

22-07-2026

Há uma pergunta que vale a pena fazer antes de abrirmos o Instagram, o TikTok ou o LinkedIn: quanto vale uma pessoa? À primeira vista, a resposta parece óbvia. O valor de alguém depende das suas ideias, do seu trabalho, do seu carácter, da forma como trata os outros. Mas basta passar alguns minutos nas redes sociais para perceber que, na prática, muitas vezes agimos de outra forma.

Quem tem um milhão de seguidores parece mais importante do que quem tem mil. Quem recebe milhares de gostos parece mais interessante do que quem recebe vinte. Um vídeo com milhões de visualizações parece automaticamente mais relevante do que outro que quase ninguém viu. Sem darmos por isso, começamos a confundir visibilidade com valor.

É precisamente sobre esta transformação que escrevi um artigo recentemente publicado na Critical Sociology (Q1 - SAGE).

1. Os números deixaram de medir o sucesso. Passaram a defini-lo.

Originalmente, um "gosto" servia apenas para mostrar que alguém apreciou um conteúdo. Hoje, estes números fazem muito mais. São usados para decidir quem merece atenção, quem é convidado para eventos, quem consegue contratos, quem é visto como especialista e até quem parece mais credível.

O problema é que deixámos de olhar para estas métricas como simples indicadores. Passámos a tratá-las como se fossem uma medida objetiva do valor de uma pessoa. É aqui que nasce aquilo a que chamo fetichismo da visibilidade.

2. O algoritmo desaparece da equação

Quando vemos alguém com milhões de seguidores, tendemos a pensar: "Chegou lá porque merece." Mas esquecemo-nos de tudo o que tornou essa visibilidade possível. Os algoritmos decidiram mostrar determinados conteúdos e esconder outros. As plataformas favorecem vídeos mais emocionais, mais polémicos ou mais capazes de prender a atenção. Determinados formatos são premiados; outros tornam-se praticamente invisíveis. No entanto, quando olhamos para o resultado final, tudo isto desaparece. Ficamos apenas com os números — e assumimos que eles revelam o verdadeiro valor daquela pessoa.

É uma ilusão muito semelhante à descrita por Karl Marx quando explicava que esquecemos as relações sociais por detrás das mercadorias e passamos a acreditar que o valor pertence naturalmente às próprias coisas. Hoje acontece algo parecido com a visibilidade.

3. Começamos a viver para agradar ao algoritmo

Esta lógica não afeta apenas influenciadores. Afeta praticamente todos os utilizadores. Publicamos fotografias e, pouco depois, verificamos quantos gostos receberam. Apagamos conteúdos que tiveram pouca interação. Escolhemos determinados temas porque sabemos que "funcionam melhor". Aprendemos, muitas vezes sem nos apercebermos, aquilo que o algoritmo recompensa.

Pouco a pouco, deixamos de perguntar "O que quero dizer?" e começamos a perguntar "O que terá mais alcance?"

4. O nosso valor começa a parecer um número

Talvez esta seja a mudança mais profunda: os números deixam de medir aquilo que fazemos. Passam a medir quem pensamos ser. Quando uma publicação corre bem, sentimos reconhecimento. Quando quase ninguém reage, é fácil interpretar esse silêncio como falta de interesse — ou até como falta de valor.

O problema é que seguidores, gostos e visualizações nunca foram concebidos para medir pessoas. São apenas métricas produzidas por plataformas cujo objetivo principal é manter a nossa atenção durante o máximo de tempo possível.

5. Isto muda também a forma como funciona a esfera pública

Esta transformação afeta a própria democracia. Durante muito tempo, a relevância de uma ideia dependia sobretudo da sua qualidade, da força dos argumentos ou da importância do tema. Hoje, muitas vezes acontece o contrário: uma ideia torna-se relevante porque circula muito.

E circula muito porque gera reações, emoções fortes ou polémica. Aquilo que é mais visível passa a parecer mais importante. E aquilo que quase ninguém vê tende a desaparecer, independentemente da sua qualidade.

Talvez seja tempo de fazer algumas perguntas. As redes sociais convenceram-nos de que aquilo que pode ser contado pode também ser comparado, e que aquilo que pode ser comparado pode ser hierarquizado. Mas será que uma pessoa vale mesmo o número de seguidores que tem? Será que uma ideia é melhor porque recebeu mais gostos? Ou estaremos apenas a confundir aquilo que o algoritmo tornou visível com aquilo que realmente tem valor?

Acredito que esta seja uma das grandes questões da comunicação contemporânea. Se deixarmos que os números definam quem somos, acabamos por esquecer uma verdade simples: o valor de uma pessoa nunca cabe numa métrica.

Nota: Este texto baseia-se no artigo científico You are your numbers: Visibility fetishism and social value in the age of social media, publicado em 2026 na revista Critical Sociology. Leiam-no aqui.

Share
© 2025 Lourenço Silva Ferreira´s website. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora