Entre Budapeste e Mealhada

12-08-2025

Estive recentemente em Budapeste. Sabia ao que ia — o que se passa na Hungria, um dos países menos democráticos da Europa, não é novidade alguma. Sob a batuta de Viktor Orbán, vive-se hoje neste país uma autocracia de fachada democrática. Sem botas cardadas, mas com pezinhos de lã, trata-se de uma erosão lenta, contínua e minuciosamente arquitetada das instituições. A imprensa independente foi sendo comprada ou silenciada. A justiça não é imparcial. O ensino, a cultura e até a investigação científica são hoje tutelados com zelo político. Orbán governa há mais de uma década com uma maioria confortável, alimentado por um sistema eleitoral distorcido, propaganda constante e um nacionalismo radical.

Andar pelas ruas de Budapeste é, por isso, significado de experimentar um estranho desconforto: a cidade é bela, a comida é boa, as pessoas são calorosas, mas paira a sensação de estar num sítio diferente. No meio de toda esta experiência, uma das virtudes da tecnologia contemporânea fez-se sentir: a possibilidade de estar conectado, mesmo longe, à minha terra e às minhas pessoas. E foi assim que, enquanto explorava praças húngaras e espreitava as margens do Danúbio, recebi notícias da Mealhada.

Uma delas fez-me pensar. Um documento, produzido com financiamento público e apontado como o órgão camarário para a divulgação de novidades, em pleno período eleitoral, inclui o seguinte trecho:
"— O que gosta mais na Câmara?
— Do meu trabalho e do senhor presidente da Câmara. Ele é cinco estrelas. Há dias prometeu que ia comigo no camião fazer recolha e eu vou cobrar."

Esfreguei os olhos. Algo de errado não está certo. Um presidente de Câmara é transformado no protagonista absoluto, numa operação de exaltação pessoal sem qualquer distanciamento crítico ou informação relevante para os munícipes. Para lá da falta de filtros e de precauções, trata-se de uma inversão preocupante do papel do poder público: em vez de servir a comunidade, serve-se da máquina institucional para alimentar o culto da personalidade. O mais grave: meios de informação da comunidade apropriados para promoção pessoal e político-partidária. Uma peça apresentada não num panfleto partidário, mas num documento institucional — pago com o dinheiro de todos, para nos dar informação relevante enquanto munícipes.

Estamos nisto. Portugal, 2025. Dois meses para as eleições. O mundo é um sítio bonito. Num mundo perfeito, todos os trabalhadores publicam votos de carinho aos seus superiores, que estes republicam para a felicidade global.

Mealhada não é Budapeste, só um tolinho o diria. Mas a distância entre uma autocracia funcional e uma cultura política do "líder cinco estrelas" não é assim tanta. Dizem os livros que uma autocracia começa com pequenas naturalizações: o culto da personalidade, a dependência emocional das figuras de poder, a tolerância com os abusos simbólicos.

As cidades bonitas parecem-se todas; não obstante, cada uma é bonita à sua maneira.


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