"Abaixo a inteligência"?

09-06-2025

A 12 de outubro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola, desenrolou-se na Universidade de Salamanca um dos episódios mais emblemáticos da resistência intelectual ao autoritarismo. Durante uma cerimónia oficial do regime franquista, um general exaltava a morte como valor supremo, atacava a Catalunha e o País Basco e apelava à unidade de Espanha através da violência. O ambiente tornava-se cada vez mais hostil, com gritos como "Viva à morte" e "Abaixo a inteligência". Foi então que Miguel de Unamuno, filósofo e reitor da universidade, se ergueu para proferir palavras que atravessariam a história: "Vencereis, mas não convencereis." Com esta frase, denunciava a ilusão de que a força bruta poderia substituir o pensamento, a razão e o diálogo - valores centrais à missão da Universidade e da vida democrática.


Este momento tornou-se símbolo da tensão entre dois projetos de sociedade: por um lado, um espaço livre e plural, onde o confronto crítico de ideias é o motor do progresso; por outro, um modelo repressivo, onde o pensamento é percebido como ameaça à uniformização imposta. Quase um século depois, os ecos desse confronto ressoam noutras geografias e contextos, lembrando-nos que a desvalorização do saber continua a ser uma ferramenta recorrente em discursos populistas e antidemocráticos.

O leitor perceberá onde pretendo chegar.

Durante os primeiros meses da presidência de Donald Trump, as Universidades norte-americanas tornaram-se alvo prioritário da retórica da extrema-direita. Instituições como Harvard, Stanford ou Berkeley foram acusadas de "doutrinar os jovens", de "odiar a América" ou de serem "bastiões do marxismo cultural". O próprio Presidente ameaçou cortar o financiamento público a universidades que, segundo ele, não garantissem a "liberdade de expressão" - um conceito frequentemente instrumentalizado para proteger discursos ultraconservadores e excluir visões divergentes. Mais recentemente, tentou até impedir a entrada de estudantes estrangeiros em Harvard, uma das poucas instituições que ainda resiste à corrosão dos seus valores fundacionais. Trump tem um objetivo claro: minar a credibilidade do pensamento académico e científico ao associá-lo a uma elite distante do "povo real".

Este padrão está bem documentado: quanto mais um regime se sustenta na simplificação, na desinformação e na agitação emocional, mais teme a complexidade que o pensamento crítico representa. A ciência, a filosofia, a sociologia, os estudos culturais ou o jornalismo tornam-se alvos privilegiados - não por irrelevância, mas porque desconstroem, questionam, revelam contradições. Como em Salamanca em 1936, o ataque à universidade é sempre simbólico: é um ataque à própria ideia de democracia deliberativa, baseada na pluralidade, na dúvida e no saber partilhado.

É certo que Trump nunca gritou literalmente "abaixo a inteligência". Mas as suas ações e discursos, amplificados por redes sociais e canais televisivos alinhados com a extrema-direita, tiveram efeito análogo: desvalorização do conhecimento, da mediação informada e da crítica fundamentada. Este fenómeno não é exclusivo dos Estados Unidos. Em várias democracias, a hostilidade ao pensamento crítico anda de mãos dadas com o populismo agressivo, as campanhas de desinformação e as tentativas de controlo da comunicação social e do ensino superior.

Num tempo em que o discurso político se torna cada vez mais emocional, polarizado e hostil ao contraditório, reafirmar o valor da inteligência, da sabedoria e do conhecimento torna-se um imperativo democrático. A Universidade, a escola, os média, os espaços de reflexão crítica são hoje trincheiras de resistência contra a barbárie da ignorância.

Recuperar o gesto simbólico de Unamuno não é apenas um tributo à história. É um apelo urgente à razão. Defender a inteligência - ontem como hoje - é defender os alicerces da democracia.


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